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29 de agosto de 2000
Sorocaba
é uma empresa! --------------------------------------------------------------------------------
Walter Rodrigues
Não me refiro aos textos técnicos e legais (como o Capítulo I de
nossa Lei Orgânica Municipal ) que enquadram o Município como Pessoa
Jurídica. Esqueçamos, por ora, os tecnicismos e vamos orientar
nossas reflexões por alguns aspectos práticos, baseados naquilo que
é comum às empresas públicas e privadas.
O Município tem
estrutura hierárquica (funcionários e chefes); é departamentalizado,
com delegação de poderes (Secretarias). Tem Custos, Orçamento,
Despesas e Receitas. Tem Contabilidade. Presta serviços e portanto
tem clientes (os munícipes). Forçando um pouco a analogia, tem,
digamos, "acionistas", os eleitores, que elegem seu principal
executivo e lhe delegam poderes.
Sob esse ângulo, enquanto
empresa prestadora de serviços, o Município tem à sua disposição
todo um aparato metodológico e tecnológico de gestão de negócios ,
que foi a duras penas desenvolvido pela iniciativa privada. Com o
recrudescimento da competição provocado pela globalização dos
mercados, as empresas foram obrigadas a investir pesadamente na: a)
capacitação e valorização de seus funcionários, enquanto
depositários da inteligência da corporação; b) qualidade dos
produtos e do processo produtivo; c) qualidade e metodologia da
gestão de recursos e d) focalização do cliente, principal
responsável pelo sucesso dos negócios. Esse processo de
aprimoramento nos legou um conjunto de técnicas e métodos que foram
devidamente sistematizados e refinados pelos intelectuais do
business e que hoje encontram-se disponíveis para os administradores
de todos os níveis, em todas as escalas.
Ora, Prefeitura é
uma empresa privilegiada: não tem necessidade de conquistar mercados
e não tem concorrentes naquele em que atua. Monopólio garantido por
lei, fundamentada num etéreo "bem-estar da comunidade". Na ausência
da força propulsora da competição, o que levaria o gestor público a
modernizar a administração municipal? Tomemos emprestada a lanterna
de Diógenes para tentar iluminar as razões que justificariam um
investimento maciço na modernização estrutural das empresas
públicas. Se não há competição, para que competência? Se não há
concorrência, se os cargos estão garantidos por quatro anos, se são
parcos os mecanismos de participação (cobrança) da população, que
força poderia sensibilizar os administradores para bancar ações que
alavanquem a modernização da estrutura municipal?
Pode-se
invocar uma razão de fundo ideológico, baseada no respeito que o
representante deve aos representados, o respeito às pessoas
(consciências individuais) cujas cidadanias (consciência
participativa) cabe ao Estado promover e resguardar . (Só para
lembrar os distraídos, o munícipe, o eleitor, o contribuinte, etc.
são, antes de tudo pessoas que interagem em comunidade, sendo,
simultaneamente, indivíduos-cidadãos...). Se essa razão, per se, não
bastar, busquemos na própria lógica da nova economia argumentos que
justifiquem a aderência da autoridade pública executiva à
modernização do processo de gestão da res publica. Essa lógica é
simples e cruel: quem não adere é excluído. Nenhuma organização ,
por mais protegida e privilegiada que seja, fica impunemente revel
ao processo de globalização. É, portanto, uma questão de
sobrevivência social e econômica a adequação do Município às novas
regras que regem as relações de mercado.
Excetuando-se os
casos de relações fraudulentas entre a economia privada e a pública
(essas relações são regidas pela "Lei de Gerson", que o diga o Juiz
Nicolau.), existem fatores claros que apontam para a simbiose desses
dois polos econômicos. A interoperabilidade é um fator crucial nessa
nova ordem econômica e para interoperar é necessário que se opere em
patamares padronizados de produtos, tecnologia e gestão, isto é, os
interoperadores têm que falar a mesma língua.
Como a
simbiose - refiro-me ao relacionamento entre empresas públicas e
privadas - é conveniente para ambas as partes, os teóricos do
e-business (financiados pela inteligentia da iniciativa privada) já
têm material científico bem adiantado para aplicar à Administração
Pública. Três eventos (os dois últimos CONIP - Congresso Nacional de
Informática Pública e o conteúdo programático do 4º Seminário
Nacional de Administração Pública Gerencial, a realizar-se nos dias
23 e 24 de Agosto ) sinalizam de forma explícita o nível de
amadurecimento teórico e as ferramentas práticas já disponíveis para
os gestores públicos bem informados.
No CONIP 2000,
realizado nos dias 23, 24 e 25 de maio, a exposição da Dra. Elisa
Wolynec foi de notável competência no desenho de um panorama de
e-Government , apoiado nas técnicas de Planejamento de Recursos do
Estado, que é uma variação específica do Planejamento de Recursos
Corporativos ( para os aficcionados, as siglas são, respectivamente,
GRP e ERP). Na palestra intitulada "Paço Municipal Eletrônico, o
cidadão em primeiro lugar" a Dra. Elisa propõe um modelo em que o
setor público atenda às pressões da sociedade quanto à qualidade
(educação e saúde), eficiência na utilização dos recursos, redução
das fraudes e interação entre o governo e a população. O modelo
estabelece três níveis de conexão do Governo: com os cidadãos, com
os funcionários e com os fornecedores ( para quem gosta: G2C, G2E e
G2B).
Na mesma linha, o programa do 4º Seminário Nacional de
Administração Pública Gerencial, sob o tema "Governança e
Transformação Gerencial do Estado", mostrará tendências e
ferramentas que visem: "...transformar o Estado num efetivo
instrumento do exercício e realização da cidadania" e "
...implementar o modelo de Administração Pública Gerencial, em lugar
do burocrático vigente, a partir de princípios tais como: foco no
cidadão, reorientação dos mecanismos de controle para resultados,
flexibilidade administrativa e controle social...". Vanderlei
Ferreira , Diretor Comercial para Governo no Brasil da Microsoft e o
professor e ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, dentre outros,
são garantias da competência do evento.
É evidente que tudo
isso custa caro. Há que se contratar uma consultoria especializada,
comprar ou adequar equipamentos, compor uma Secretaria Municipal de
Gestão da Informação, com profissionais competentes para conduzir o
processo de mudança. Não sei se um projeto dessa envergadura custa
mais ou menos que a construção de um novo prédio para o Legislativo,
para o Forum ou para o TRT. Entretanto, tenho absoluta certeza que a
abrangência social de tal projeto será muito maior que a das obras
(aleatoriamente) citadas.
Nos cursos de Administração,
aprendemos que o trio dados-informação-conhecimento alavanca o curso
da evolução social do homem. Conceitualmente, o segundo e o terceiro
termos do trio representam uma transcendência ao anterior. Se
queremos resgatar o cidadão (nível "conhecimento"), temos que
proporcionar informação aos munícipes (aliás, munícipes,
contribuintes, eleitores, clientes, etc. são meras instâncias do
"cidadão"; sem informação eles não ascenderão à cidadania ). No
sentido contrário, se quisermos mantê-los como reles pagadores de
impostos, mãos-de-obra baratas e massa de manobra, basta deturpar ou
sonegar-lhes a informação.
Durante o processo de lançamento
dos candidatos pelos partidos, o "Cruzeiro do Sul" veiculou notícia
que mostrava coligações e apoios entre partidos de diferentes perfis
ideológicos. Coligações são permitidas se sustentadas por valores
éticos e não como simples ofertas de cargos. Minha proposta é
técnica, para ser conduzida por técnicos (em Sorocaba, nós os temos,
muitos e bons!). Para assessorar o Executivo no processo de quebra
de paradigmas que ora preconizo, o indicado pode,
circunstancialmente, ser parente ou amigo de quem quer que seja, mas
tem que entender - e muito - de ERP, CRM, Business Intelligence,
OLAP, B2B, B2C, etc...
Ouço e leio o que posso sobre as
propostas dos candidatos. E pelo que ouvi e li, todos estão
preocupados com o resgate da cidadania do povo sorocabano. Assim,
tenho muita esperança - quase certeza - de que aquele que vier a
ocupar a cadeira do Executivo (ou uma do Legislativo) saberá tratar
seus representados com a dignidade e modernidade que merecemos. Se
assim for, não apenas os eleitos, mas todos nós teremos vencido esta
eleição.
Walter Rodrigues é consultor
na área de Gestão de Informações Corporativas
(waltinho@sorocaba.com.br)
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